« Página inicial | PROMISCUIDADES » | INTERESSE (DO) PÚBLICO » 

segunda-feira, janeiro 23, 2006 

RE-PROMISCUIDADES

Patrick Dias da Cunha, administrador da Precision Portugal, escreveu ao director do PÚBLICO a queixar-se da crónica do Provedor publicada na passada semana.

Ponto por ponto a missiva da Precision e as respostas do Provedor:

"1. Quanto à natureza do texto de Margarida Pinto Correia (MPC), intitulado "O outro lado do Dakar", ele é, de forma inequívoca, uma crónica e não um texto publicitário."
A natureza dos textos é definida apenas em função de critérios editoriais que só dizem respeito ao PÚBLICO.
O que é questionado na crónica é o PÚBLICO e a publicidade não assinalada.

"1.1. O projecto apresentado ao Público pela Precision refere-se, de uma forma muito explícita, aos objectivos da reportagem e, em particular, às suas três vertentes: "A Precision irá produzir uma reportagem sobre o dia-a-dia de uma equipa e do ambiente que rodeia o Dakar, que incidirá a) nas peripécias diárias que um piloto e a respectiva equipa vivem neste tipo de competição, b) nas pequenas histórias que vão acontecendo na caravana que acompanha a prova, c) bem como na moldura de culturas, gentes e costumes dos países que a prova atravessa."
A Precision não pode produzir reportagens porquanto não é uma empresa de comunicação social e Margarida Pinto Correia já não exerce a profissão de jornalista.

"1.2. Em relação a MPC, não só a Precision lhe entregou o mesmo briefing, como lhe foi feito um pedido expresso, em princípio redundante, para não mencionar, em circunstância alguma, a actividade e os serviços da marca."
Se M.P.C. exercesse a profissão de jornalista, seria desnecessário entregar briefings e formular pedidos desse género. Não sendo M.P.C. jornalista, pode escrever o que quiser.

"(...) 2. Tendo em conta o esclarecimento dos leitores e, precisamente, o princípio fundamental de separação da informação e da publicidade, qual deve ser, então, o tratamento gráfico de um texto que, apesar de ser custeado por uma empresa, é, de forma inequívoca, uma crónica, e não é, portanto de forma também inequívoca, um texto publicitário?"
O facto de o texto ser custeado por uma empresa impede que o mesmo seja considerado um "produto" jornalístico.

"2.1. Parece-me que seria incorrecto assinalar os anúncios da coluna como "PUBLICIDADE", como sugere o Provedor, uma vez que, ao fazê-lo, o jornal estaria a induzir o leitor em erro quanto ao conteúdo da coluna, correndo o risco de ferir, precisamente, o princípio de separação entre informação e publicidade. Por isso a Precision fez questão que os textos de MPC fossem lidos de acordo com a sua verdadeira natureza, isto é, como crónicas genuínas. Caso o Público tivesse pretendido identificar as crónicas de MPC como "Publicidade", a empresa não estaria interessada no projecto, porque, de facto, as crónicas de MPC sobre "O outro lado do Dakar" não são, nem nunca pretenderam ser, propaganda comercial."
A única certeza é que o texto de M.P.C. não é jornalismo. E isso não é explicitado na coluna. À semelhança da publicidade da Precision.

"2.2. O Provedor também sugere separar os anúncios associados à coluna de MPC da respectiva crónica, e publicá-los em áreas diferentes do jornal. Isto sim seria, em meu entender, uma total falta de transparência."
O que o Provedor defende (com base no Livro de Estilo, cujo ponto 123 estipula: "deve evitar-se a inserção de publicidade a objectos ou acontecimentos nas mesmas áreas do jornal em que esses objectos ou acontecimentos forem tratados pela Redacção") é que a publicidade da Precision não devia aparecer nas páginas que tratavam o Dakar.
É uma regra discutível, mas é a que existe.

"(...) 2.4. Parece-me que este é o método mais rigoroso de comunicar a verdadeira natureza do texto e do projecto em causa e de, ao mesmo tempo, assegurar à empresa patrocinadora a rentabilização do seu investimento, conciliando de forma transparente os interesses em questão com os princípios fundamentais do jornalismo. Sou um leitor assíduo do PÚBLICO e já li com interesse reportagens assumidamente patrocinadas por marcas e assinadas por jornalistas do jornal. Não me fez confusão ver, recentemente, o logótipo de uma marca a encabeçar uma determinada reportagem, nem as referências pontuais que o jornalista faz, no meio do seu texto, ao nome da referida marca. Essas referências não desvirtuaram a natureza dessa reportagem nem a transformaram num texto publicitário. Quando a relação é transparente e o texto é, de forma inequívoca, uma crónica ou uma reportagem, todos - leitores, jornal e patrocinadores - teríamos a perder se o assinalássemos como "Publicidade". E se o jornal o fizesse estou em crer que muitas excelentes reportagens deixariam de ser realizadas."
As reportagens e as crónicas não servem para rentabilizar investimentos. A isso chama-se publicidade ou propaganda comercial (legítimas), mas não pode ser confundida com informação, a qual se rege por normas e princípios de independência.
O Provedor gostaria de ter conhecimento das referidas "reportagens assumidamente patrocinadas por marcas e assinadas por jornalistas".

"3. O princípio da separação entre informação e publicidade é um tema interessante e admito que possa ser sujeito a várias interpretações. É natural que um ou outro leitor tenha dúvidas sobre estas questões e considero que um Provedor pode contribuir de forma decisiva para o seu esclarecimento, desempenhando um papel importante num jornal de referência como o Público. Nos pontos 1. e 2. tive a preocupação de esclarecer o ponto de vista da Precision."
"(...) 4. Já no que respeita ao título "Promiscuidades", considero que o Provedor prestou um mau serviço aos leitores e ao jornal. Para além de ser ofensivo - para MPC, para a Precision e para o próprio jornal - o título é opinativo, influenciando logo à partida o leitor. Tratando-se de uma matéria que, segundo o Provedor, é controversa, não se deveria deixar ao leitor a liberdade de formar a sua própria opinião? Neste caso, o Provedor foi deveras infeliz, dando um mau exemplo ao fazer ele próprio com o título o que tanto é criticado nos jornais que não são de referência, e ferindo, assim, um dos princípios pelos quais tem a responsabilidade de zelar. Creio que um título sóbrio e neutro seria mais adequado quer às responsabilidades de um Provedor de um jornal de referência quer ao rigor que lhe deve ser exigido."
Os jornais e o jornalismo obedecem a regras e legislação específicas e o Provedor dos Leitores existe exactamente para dar a sua opinião, defendendo uma relação de transparência entre o PÚBLICO e os seus leitores.
O jornalismo serve para informar. A publicidade e a propaganda comercial servem para convencer. A mistura destes géneros chama-se promiscuidade.

PS - O texto integral da Precision está disponível no seguinte endereço web: www.publico.pt/provedor/cartas

A verdade é que esses textos de MPC apareceram sempre nas páginas das notícias do Dakar sem a referência PUB.
O Provedor levanta a lebre mas não a abate.

Rui,

Parabéns pelo blog.
Importa que o Público abrace lugares de pioneirismo - um dos seus traços de carácter original.

Na sequência desta resposta tinha - também - muito interesse em conhecer esses outros casos de que fala o Sr. administrador da empresa em causa.
Presumo que ele saberá o que diz e, assim sendo, todos - jornalistas, leitores e empresas - beneficiariamos de uma discussão aberta sobre os eventuais casos.
Bom trabalho,

luis santos

Meus caros, está aberto mais um espaço de maturidade da nossa liberdade cívica. Um blog de um jornal, disponível para dar a oportuniade aos leitores de formatarem e fazerem lobbying, um poder muito para além da proporção dos 80 cêntimos que o jornal nos custa todos os dias ; ))))

Já agora gostaria de cumprimentar o Público por abrir a secção de Desporto de hoje com os 81 pontos de Kobe Bryant na partida contra os Toronto Raptors e não com futebol. Para um apreciador de diversas modalidades como eu só pode ser bom sinal ver que este marco histórico do Basket não passou despercebido. ; ))))

E na secção de Sociedade apreciei de forma destacada a notícia sobre "O escocês perseguido na Madeira por causa da fé". Na espuma acelerada dos dias é um prazer ler um artigo histórico que nos faz olhar para nós como povo ; )))

Já agora gostava de perguntar à redacção do Público pq é que chamam ás vítimas do Processo Casa Pia "alegadas vítimas". Foram feitas perícias que confirmaram o abuso sexual, só está em causa saber se foram ou não os arguidos em causa os perpetuadores dessas sevícias. Portanto, "alegadas vítimas" é uma expressão jornalisticamente incorrecta, pois os danos causados organicamente nos adolescentes e crianças foi verificado medicamente. Fica esta questão depois de ler a notícia na pag. 13 ; )))))

E da edição de hoje é tudo, um abraço a todos os que participarem neste cantinho.

Peter Maia

Esperemos que o Público, na sua estranha voracidade, não engula também o Rui Araújo enquanto Provedor. Ele que não se amanse excessivamente: há muito atropelo no jornal ao seu próprio "celebrado" Estatuto, há a Direcção Editorial que há; há, em suma, muito mais que "lana caprina".

Muitas vezes têm acontecidos eventos e situações em que, LICENCIADOS EM ARQUITECTURA DISCRIMINADO PELA ORDEM DOS ARQUITECTOS QUE OS IMPEDEM DE EXERCER A PROFISSÃO, tentam dar conhecimento público da sua situação, e o Público geralmente nunca é imparcial, dando sempre a versão da Ordem dos Arquitectos e não uma independente ou as duas.

UMA PROVA DO QUE FALEI ATRÁS SOBRE A oRDEM DOS ARQUITECTOS E OS LICENCIADOS É QUE PARA SER PÚBLICADO O POST TEM DE SER PRIMEIRO " APRECIADO" E SÓ DEPOIS É QUE É AFIXADO.

tAMBÉM TÊM LÁPIS AZUL, OU A CÔR JÁ MUDOU?

o sr.Patrick Dias da Cunha, quando decidiu "patrocinar" as férias de M.P.C, pensou que estaria a comprar a credibilidade do Público e o serviço de uma ex- jornalista, para melhor branquear a publicidade à sua empresa. Afinal, se o seu objectivo não era a propaganda comercial, então porque decidiram comprar espaço publicitório? poderiam perfeitamente ter abdicado de qualquer referencia à sua marca e nome...

é tudo mas é uma cambada de gatunos. ó.

não tenho expectativas altas sobre o novo provedor;
veja-se a história doa anteriores, maxime o última J furtado: paupérrimo na sua missão

Enviar um comentário

Sobre o blog

  • O blogue do Provedor do Leitor do PÚBLICO foi criado para facilitar a expressão dos sentimentos e das opiniões dos leitores sobre o PÚBLICO e para alargar as formas de contacto com o Provedor.

    Este blogue não pretende substituir as cartas e os e-mails que constituem a base do trabalho do Provedor e que permitem um contacto mais pessoal, mas sim constituir um espaço de debate, aberto aos leitores. À Direcção do PÚBLICO e aos seus jornalistas em torno das questões levantadas pelo Provedor.

    Serão, aqui, publicados semanalmente os textos do Provedor do Leitor do PÚBLICO e espera-se que eles suscitem reacções. O Provedor não se pode comprometer a responder a todos os comentários nem a arbitrar todas as discussões que aqui tiverem lugar. Mas ele seguirá atentamente tudo o que for aqui publicado.

  • Consulte o CV de Rui Araújo

Links

Um blog do PUBLICO.PT